26 de janeiro de 2017

Afinal o que é Doença de Crohn? (PARTE 3)

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Parte 2 - aqui



" Foram dias muito cansativos e, acima de tudo, carregados de ansiedade. A verdade é que ninguém me prestava esclarecimento algum sobre a operação, sobre o que aconteceu, sobre o que escondia aquela enorme ligadura e aquele saco que estavam na minha barriga. Na altura não percebi o porquê de tantas respostas evasivas às minhas perguntas ... hoje percebo. "



Não há vida mais rotineira do que a vida de hospital. Todos os dias, às 6 e meia da manhã, as enfermeiras acordam os doentes para medirem a temperatura e a tensão. Por volta das 7 e meia começam os banhos e às 9 vem o primeiro pequeno-almoço da manhã. Para os que pensam que estar internado no hospital significa descanso e horas perdidas a meter o sono em dia, posso-vos dizer que estão incrivelmente enganados. Eu era aquela pessoa que, durante a noite, não pregava olho. Ou era por causa da luz da casa de banho que me fazia confusão, ou era porque ouviam-se barulhinhos aqui e ali e eu, sem querer, captava tudo. Durante a manhã e à tarde tentava fechar os olhos, mas num hospital, durante o dia, há todo um leque de coisas a acontecer: ou recebes visitas do médico e dos familiares, ou tens de tomar um antibiótico qualquer, ou alguma enfermeira vem picar-te pela milésima vez. De todas as vezes que estive internada saí de lá completamente exausta, tanto fisicamente como psicologicamente.

 Numa dessas manhãs em que estava a tentar meter um pouco do meu ilimitado plafond de sono em dia, fui delicadamente acordada por uma enfermeira que nunca tinha visto naquele serviço. Com muito cuidado ajudou-me a sentar na cama e apresentou-se. Trazia com ela dois panfletos informativos e um caderno onde apontava as minhas respostas a algumas perguntas que ela, com toda a simpatia, me ia fazendo. No fim perguntou-me a que horas a minha mãe me ia visitar nesse dia, e eu disse que ela chegava sempre por volta da uma da tarde. Depois de apontar a minha resposta no caderno, pousou os panfletos na minha cama e disse: "Vanda, já te disseram o que tens aí no lado direito da tua barriga?". Aproveitei o momento e a pergunta para mostrar delicadamente o meu desagrado quanto ao facto de, passados 5 dias de internamento, ainda ninguém me ter dito nada sobre a minha operação ou sobre a montanha de máquinas, fios e ligaduras que andavam atrás de mim por tudo o que era lado. A enfermeira, muito sorridente, continuou: "Não te preocupes, hoje vais saber tudo. Vanda vou-te deixar aqui estas brochuras. É importante que as leias. Quando a tua mãe chegar eu volto aqui para vos levar ali para o meu gabinete para estarmos mais à vontade, está bem?". Eu aprovei a ideia, despedi-me dela e esperei ansiosamente pela hora das visitas. 

A minha mãe nunca se atrasava. Naquele dia perdeu o autocarro e atrasou-se meia-hora. Quando chegou pedi que fosse avisar a senhora que estava ao balcão, na entrada do serviço e, passados dois minutos, a tal enfermeira simpática já estava ao pé de nós. Levou-nos para uma sala que ficava dentro do serviço. Tinha uma maca no meio, uma secretária de madeira antiga e um armário gigante que ocupava toda a parede do fundo. Haviam também 3 balanças e uma espécie de bidé alto com rodas e um lavatório. A primeira coisa que me perguntou foi se eu tinha lido os panfletos que tinha deixado comigo e eu respondi que sim, porém não os tinha entendido completamente. Ela disse que não havia problema e pediu que me deitasse na maca. Depois disse: "Eu vou explicar-te tudo enquanto vou tirando essa ligadura que tens na barriga. Não estejas nervosa, foca-te apenas naquilo que eu te vou dizer e não levantes a cabeça" e, com muito custo, assim fiz. Ela começou por dizer que a operação tinha sido bastante longa mas que, segundo os relatórios que estavam no meu processo, tinha corrido tudo bem. Depois fez-me uma breve explicação sobre o que tinha exatamente acontecido: que o meu intestino tinha rasgado e que a inflamação era enorme e tiveram de cortar exatamente 21 centímetros de intestino inflamado. Enquanto ela falava eu conseguia sentir a ligadura a sair cuidadosamente da minha barriga. Até aquele exato momento eu sentia-me tranquila e tentava absorver tudo o que ela dizia. Quando a ligadura saiu totalmente senti uma espécie de 'peso' no lado direito da minha barriga. A enfermeira pediu-me para me sentar com cuidado e para manter a calma. A minha primeira reação foi olhar-lhe nos olhos, apenas para não ter o impulso de olhar para baixo. Ela deu-me a mão e, com toda a delicadeza que lhe era naturalmente característica, disse: "O teu intestino precisa de uma espécie de 'descanso'. E para que o intestino possa descansar vais ter de andar com este saquinho durante alguns meses" ... olhei para baixo e, naquele momento, deixei completamente de ouvir. Um misto de emoções atingiram-me como se fossem balas. "O que é que me fizeram?" pensava eu enquanto as lágrimas escorriam pela minha cara. Vi um saco transparente, do tamanho mais ou menos de uma mão, colado a uma espécie de 'placa' que, por sua vez, estava colada à minha pele. Dentro dele conseguia ver o meu intestino. Assim, sem mais nem menos: um buraco na minha barriga de onde saia cerca de 6 centímetros de intestino. Do meu intestino. Ao lado, mais precisamente desde o umbigo à zona pélvica, conseguia ver os mais de 30 pontos feitos na operação (sim, a minha barriga parecia literalmente a cara do Frankenstein). Eu chorava compulsivamente. Não me recordo de todas as coisas que a enfermeira tentou fazer para me acalmar. Se houve um momento em que me senti completamente em estado de choque, absolutamente desamparada ... sem dúvida que foi aquele. Ninguém está preparado para uma coisa daquelas, muito menos uma miúda de 21 anos. E posso-vos dizer que, ao longo de toda esta aventura, esta foi uma das únicas vezes que chorei.





Não foi fácil digerir aquilo. Aliás, até aquele preciso momento nunca imaginei sequer que fosse humanamente possível viver com o intestino a sair-nos literalmente da barriga. Nem da barriga nem de outro lado qualquer. Se por acaso aquilo tivesse sido apenas um sonho eu batia palminhas à minha enorme imaginação. Mas a verdade é que mais real que aquilo não podia haver, e depressa percebi que tinha uma obrigação para comigo própria: a de ser forte. Perguntei à enfermeira mais de dez vezes "mas é mesmo só 6 meses não é?", ao que ela respondia que sim, com uma paciência de santa inabalável. Admirei muito a maneira como ela conduziu toda aquela situação delicada, e admirei ainda mais quando me perguntou, numa tentativa de amenizar o ambiente, se eu queria dar um 'nome' ao meu estoma (sim, ter o intestino para fora tem um nome científico). E foi assim que batizei os 6 centímetros do meu intestino que vieram ver a luz do dia durante 6 meses de 'ranhoso'. Entre lágrimas, nervos, choque e mais lágrimas, dar um nome parvalhão ao meu estoma pareceu-me muito bem. Aliás pareceu-me perfeito.

Na hora seguinte foi-me dada uma espécie de 'aula' sobre como tinha de tratar do ranhoso em casa. Depressa percebi que é como acabar de ter um filho: despejar sacos, tirar a placa e substituir por outra, medir o estoma, colar a placa, trocar o saco e limpar o 'ranhoso' . Tudo isto de 3 em 3 dias, sem falhar. Fiz tudo isto a primeira vez com a enfermeira, passo a passo, sem deixar escapar qualquer pormenor. Tive de lutar contra vários bloqueios que iam surgindo na minha cabeça, como o nojo em tocar no meu próprio intestino por exemplo, bloqueio esse que tive de ultrapassar em 2 segundos e meio. Eram quase 4 da tarde quando voltei para a minha cama, carregada com um mala dada pela enfermeira com tudo aquilo que eu precisava para cuidar do 'meu ranhoso' sozinha. 

O que se passou naquela sala foi bastante desgastante psicologicamente. Eu tinha 21 anos, até ali eu era uma rapariga que se achava inquebrável. Mas naquele momento senti-me como se tivesse um limite. Na verdade todos nós temos um, mas só nos confrontamos com ele quando chegamos a uma certa idade. Não é suposto uma miúda de 21 anos, com toda uma vida pela frente, ter de dar de caras com a noção nua e crua de que a vida tem um prazo de validade e que nós, seres humanos, somos apenas feitos de carne e osso. Os 6 meses que passei com o estoma foram os piores 6 meses da minha vida, e digo isto com toda a convicção. Não que não fosse minimamente suportável andar com o saco pendurado na barriga, mas condicionou imenso a minha vida: não podia sair durante muitas horas seguidas de casa; tinha de ter imenso cuidado com a placa, qualquer movimento brusco podia descolá-la da barriga; tinha de usar roupas largas para que o saco não se nota-se; tinha de ir imensas vezes ao wc despejar o saco; não podia andar em multidões com medo que alguém fosse contra a minha barriga, enfim ... é como ter uma pequena bomba-relógio colada a mim. A minha vida mudou radicalmente nesse período de tempo e eu mal podia esperar que passassem os 6 meses para poder voltar a ser 'normal' de novo ... ou pelo menos sentir-me como tal.


(PS: Continuação aquil)

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