19 de janeiro de 2017

Afinal o que é Doença de Crohn? (PARTE 2)

" ... Quando estão para sair, eu pergunto: "Sr. Doutor, mas afinal o que é que eu tenho?". E foi neste dia que eu soube. "Minha querida, tens uma doença que se chama Doença de Crohn que é no intestino. Mas daqui a uns dias vais ter alta e vais ser seguida por um médico que te vai explicar tudo. Vai correr tudo bem!". Tomara eu que tivesse sido tão simples quanto isto! ... "


(ps: primeira parte para ler --> aqui)



Dois dias depois de ter alta, conheci o Dt. Jaime Ramos. "Temos aqui uma bela menina", disse ele a primeira vez que entrei no consultório, e escusado será dizer que simpatizei logo com ele. Ele fez-me imensas perguntas, perguntas que nunca nenhum outro médico me tinha feito antes e que teriam sido fundamentais para perceberem o que se estava a passar comigo. No fim de um longo questionário, pegou numa folha branca e numa caneta, desenhou uma espécie de intestino e disse: "bom, básicamente o Crohn é uma bactéria que se aloja no intestino. Não se sabe bem ainda através de que meio este tipo de bactéria entra no organismo, mas a causa mais provável é que seja através da alimentação. O que acontece é que o intestino cria inflamações e lesões e são essas lesões que causam dores agudas e bastante perda de peso e falta de apetite" ... eu ouvia-o atentamente e ele prosseguiu enquanto fazia uns rabiscos na folha: "o que vamos fazer Vanda é tomar uns anti-inflamatórios fortes durante 3 semanas e fazer uma dieta rigorosa. Este tratamento não vai resolver o problema, mas vamos tentar estabilizar ... o Crohn não tem cura". Não vou mentir e dizer que era novidade para mim, porque na verdade não era. Eu própria fiz a minha pesquisa sobre o que é isto do 'Crohn' e cedo percebi que era algo com o qual eu tinha de aprender a viver o resto da minha vida. Acho que foi o facto de eu ter esta informação desde o início que me permitiu ficar com os pés bem assentes na terra, aceitar o que estava a acontecer comigo e seguir em frente. Senti-me ainda melhor quando descobri que o Dt. Jaime é o maior especialista em doenças como a minha no nosso país. 



Desde 10 de Novembro de 2013, dia em que tive alta da minha primeira operação, até ao mês de Dezembro foi um pulo. Talvez por me sentir como não me sentira há bastante tempo: normal, sem dores. Segui sempre à risca as recomendações do médico: nada de fritos, nada de molhos, nada de gorduras. Só Deus sabe o que me custou não poder comer o mesmo que os meus pais e irmãos à mesa. E, não sei como nem porquê, no dia 11 de Dezembro voltei ao mesmo: náuseas, vómitos, dores. Tinha recomendações do Dt. Jaime para, caso acontecesse o que estava precisamente a acontecer naquele momento, ir ter com ele ao hospital e não ir para as urgências. Assim fiz e, quando dei por mim, horas depois estava novamente internada. "Vamos começar um tratamento mais forte, e para isso precisas de cá estar uns dias para vermos se fazes alergia" ... uns dias ... 10 dias mais precisamente, quase quase em risco de passar o Natal de 2013 no hospital, longe da minha família, e não havia nada que me pudesse entristecer mais naquela altura. É por isto que acredito que Natal também significa esperança: no dia 21 tive alta e passei um dos melhores natais da minha vida (apesar de não poder comer quase nada, o que foi como ir ao inferno e voltar umas mil vezes). Fui para casa com bastante medicação para tomar e isso dava comigo em louca. Eu detestava (e detesto) tomar comprimidos, e foi mesmo com muita força de vontade que eu os tomava a todos religiosamente, a horas certas. Queria ficar melhor e este pensamento para mim era como um ponto final gigante: eu não só queria como tinha! Mas a demora em diagnosticar a minha doença deixou graves mazelas. A doença teve espaço e tempo para progredir o suficiente para no início de 2014 'rasgar-me' o intestino e levar-me de novo para o hospital com uma pulseira "à Benfica" no pulso e dores que, numa escala de 0 a 10, eram, à vontade, um 11 autêntico. Ninguém faz ideia, ou sonha sequer, o que eu sofri naquele dia. Enquanto esperava para ser operada, deitada numa maca nas urgências do hospital, imaginava-me com uma faca na mão, prontinha para a espetar na barriga. Qualquer dor que pudesse imaginar naquele momento, para mim, seria melhor que aquela que estava realmente a sentir. As pessoas falam em coisas insuportáveis sem saberem em concreto o que é algo verdadeiramente insuportável. Eu senti coisas absolutamente insuportáveis naquele dia, e por muito que tente descrever, simplesmente não consigo. Fui operada de urgência por volta das cinco da tarde e voltei a acordar apenas no dia seguinte, por volta da mesma hora. Sim, foi uma operação longa e complicada, e sim, foram 24 horas a dormir, com 'dose' de anestesia para cavalo no bucho, sem saber o que ia encontrar quando acordasse.

Sabem aquela parte que aparece imenso nos episódios da série 'Criminal Minds', em que a vitima acorda numa maca, num completo cenário de filme de terror? Foi o meu primeiro pensamento quando acordei: "ok, estou dentro de um episódio de Mentes Criminosas!". A primeira coisa que me lembro de ver foi a minha mão. Tinha uma ligadura enorme e três tubos a sair de dentro do penso. Mil e um cenários absolutamente parvos me passaram pela cabeça, tais como me terem partido a mão na operação, ou simplesmente uma serra daquelas dos filmes do Saw ter-me cortado a mão 'sem querer'. Mas depressa me distraí com as três máquinas que estavam à volta da minha cama, cada uma delas a fazer um diferente tipo de 'pii'. À medida que ia recuperando todos os meus sentidos, ia percorrendo o meu corpo com as mãos até chegar à minha barriga. Senti uma ligadura à volta da minha cintura, assim como a minha barriga super inchada. Conseguia sentir com a ponta dos dedos os agrafos que iam desde o umbigo à zona abdominal. Senti também uma espécie de 'saco' preso ao lado direito da ligadura. Decidi espontaneamente não pensar demasiado naquilo tudo para não entrar em choque. Acho que foi exatamente este pensamento que, em várias situações desta enorme história, me salvou em termos psicológicos: o tentar não pensar demasiado nas coisas, o que era, como ia correr, o que ia acontecer. Os pensamentos são demasiado poderosos e facilmente moldam aquilo que temos dentro da nossa cabeça. Eu não deixei que isso me acontecesse e foi, sem dúvida, a melhor coisa que eu fiz por mim própria. 

Os primeiros três dias foram bastante sofríveis: não conseguia andar, não podia comer nem beber nada, não podia ir ao wc. Senti na pele o que é depender a sério de alguém para as coisas mais básicas e pessoais que temos na nossa vida. Quando me ajudaram a levantar pela primeira vez as pernas não correspondiam e eu não conseguia andar quatro passos sem ter de parar para descansar. Sentia-me como se tivesse sido atropelada por um tanque gigante e por um camião ao mesmo tempo. Pediam-me paciência mas eu tenho tudo menos paciência para dar e vender, porém sabia que não tinha escolha. Fui bastante mimada por todas as enfermeiras e auxiliares e isso, por breves momentos, deixava-me bastante mais tranquila. Adorava receber visitas. De noite, quando não conseguia dormir, pensava nas pessoas que gostaria que me fossem visitar. Dei por mim a pensar em pessoas que eu deixei para trás, que não via à imenso tempo ou pessoas pelas quais eu, antes daquele momento, sentia uma enorme mágoa. Queria-as todas ali, para me fazerem rir, para me darem forças. Tudo passou a resumir-se aquele momento, todas as mágoas tinham desaparecido. É como se tivesse levado uma chapada e tivesse percebido o quanto a vida é frágil e preciosa ao mesmo tempo, assim como no quanto desvalorizamos as coisas boas que aconteceram na nossa vida para valorizar as más. No fim acabamos numa cama de hospital e tudo se resume a isso. É uma parvoíce, não é? Porém foram poucos os que lá estiveram para mim e isso deu-me uma enorme lição de vida.

Foram dias muito cansativos e, acima de tudo, carregados de ansiedade. A verdade é que ninguém me prestava esclarecimento algum sobre a operação, sobre o que aconteceu, sobre o que escondia aquela enorme ligadura e aquele saco que estavam na minha barriga. Na altura não percebi o porquê de tantas respostas evasivas às minhas perguntas ... hoje percebo. 

(PS: Continuação aqui)


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