13 de dezembro de 2016

Afinal o que é Doença de Crohn? (PARTE 1)

Sabem quando vos perguntam que curso é que vocês andam a tirar na escola, e por mais simples que o nome seja para vocês, mais de metade das pessoas pergunta sempre: "Que curso é esse? Serve para quê?" ?. Bom, isto (ainda) não é um post sobre esse tema (vai ser um dia, aguardem), mas é sobre algo que tem reações muito semelhantes por parte das pessoas das quais eu me rodeio. Por exemplo, quando conheço alguém novo ou quando alguém que conheço à pouco tempo me pergunta que cicatrizes são estas que tenho na barriga, ou o significado de uma ou outra foto que meti no Facebook, a minha resposta é sempre a mesma: "Eu tenho Doença de Crohn". E as reações são, também, sempre as mesmas: "Que doença é essa? O que faz?". E este post é sobre isso mesmo: um mega post inteirinho sobre o que é esta doença, o que ela causa no meu corpo e o que ela mudou na minha vida desde há três anos para cá. A história é longa por isso vai ser repartida em 3 post's que vão para o ar em dias seguidos (só para não meter para aqui um texto de 1500 linhas que vocês nunca na vida irão ler). Bom ... por onde começar?! 



Diagnosticar este bichinho não foi pêra doce. Foram mais de meia dúzia as idas às urgência só num ano e sem nunca saber o que me estava a causar tantas dores no estômago, tanta falta de apetite e, por consequente, tanta perda de peso. "É mais uma gastroenterite" diziam eles cada vez que eu metia os pés nas urgências, e depois de cinco/seis horas de espera, lá vinha eu com uns comprimidos e uma dieta para fazer em casa. A verdade é que não era gastroenterite nenhuma: eu continuava com as mesmas dores, perdia cada vez mais peso e estava cada vez mais magra. Toda a gente à minha volta dizia "tens de comer", "olha para isso, estás tão magra", como se a falta de apetite que tinha fosse provocada por mim própria. Não era, nunca foi!! Andava frustrada com tudo: por não conseguir comer, por andar 24 sob 24 horas com dores, por me ver ao espelho e não gostar do que via, por já não ter o que vestir porque já nada me servia e, acima de tudo, por ninguém se importar em perceber o que realmente me estava a acontecer. E no meio dessa frustração toda, mais uma ida às urgências e, na cabeça dos médicos, mais uma gastroenterite. Era uma porra de um ciclo vicioso e eu estava morta por sair dele. E pensei que tinha efetivamente saído quando, numa das idas às urgências, o médico que me atendeu não teve coragem de me dizer, mais uma vez, que tinha uma gastroenterite e mandou-me a uma consulta de Medicina Interna no Hospital Santa Maria. Quando chegou o dia da consulta eu estava calma e, ao mesmo tempo, alíviada por as coisas estarem finalmente a seguir outro rumo. Mas nada aconteceu como eu esperava que acontecesse: para a médica eu não passava de mais uma jovem de 20 anos que queria emagrecer para ir de encontro aos supostos 'padrões de beleza' exigidos pela sociedade. Fiquei paralisada naquele momento! "O quê? Mas esta porca está a brincar comigo?", pensava eu. Era ridículo. Era frustante. Eu andava cheia de dores há meses, não conseguia comer uma refeição como deve de ser há meses e aquela médica tem a coragem de me dizer na cara, à frente da minha mãe, que eu é que estava a provocar aquilo tudo a mim mesma? Só me apetecia chorar. Deitar-me na cama e nunca mais sair de lá. Nunca senti, na minha vida, uma frustração tão grande

As coisas mudaram drásticamente quando, duas semanas depois de ir à consulta com a tal médica maluca, as dores tornaram-se piores. Não conseguia sequer meter-me de pé, e já não era o estômago o que mais me doía, agora era mais para baixo. Era o intestino. No hospital só exigi uma coisa: que não me voltassem a dizer que era mais uma gastroenterite porque eu sabia que não era. Não podia ser. Mandaram-me fazer análises e estava tudo normal. Mandaram-me para o raio-x e tudo normal outra vez. Não podia ser, doía tanto. Mandaram-me fazer uma ecografia e foi aqui que as coisas definitivamente mudaram: na ecografia não conseguiam ver nada. E o problema foi esse: não era possível não se ver rigorosamente nada numa ecografia. A zona que me doía estava completamente inflamada, como se tivesse prestes a rebentar. Foi um choque. Mandaram-me fazer um TAC. Mais do mesmo. Passados 20 minutos disseram-me que tinha de ser submetida a uma pequena cirurgia onde me iam meter umas câmaras por dentro para conseguirem ver melhor. E foi apartir daqui que a minha vida mudou.

Lembro-me de olhar para o relógio da sala de operações antes de me meterem a dormir. Eram vinte e duas horas em ponto e eu só sentia frio. Acordei numa sala escura, com tubos no nariz, sozinha. Olhei para o relógio e já eram uma e vinte e quatro da manhã. Voltei a dormir só para não entrar em pânico. Quando voltei a acordar já estava noutra sala, noutro hospital e com outra roupa. Foi estranho, muito estranho. Os primeiros dias de internamento foram dolorosos: não conseguia andar, não podia comer nada, não podia beber nada, era picada duas vezes ao dia pelas enfermeiras e não conseguia dormir nada à noite. Uma semana depois chorava porque queria comer. Não tinha propriamente fome por causa do soro, mas tinha uma enorme vontade de mastigar, de engolir, de degustar. Já andava (muito devagar), mas os meus pés estavam sempre inchados, e cansava-me muito rápido, tão rápido que andar 3 metros até à casa de banho era um suplício. Dois dias antes de ter alta foram quatro médicos ao meu quarto. Falavam muito entre eles sobre mim, diziam nomes esquisitos, linguagem de médico, e todos os meus esforços para tentar captar alguma coisa eram escusados. Quando estão para sair, eu pergunto: "Sr. Doutor, mas afinal o que é que eu tenho?". E foi neste dia que eu soube. "Minha querida, tens uma doença que se chama Doença de Crohn que é no intestino. Mas daqui a uns dias vais ter alta e vais ser seguida por um médico que te vai explicar tudo. Vai correr tudo bem!"Tomara eu que tivesse sido tão simples quanto isto!


(PS: Continuação --> aqui)

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